13.6.11

Mal chegas notas no quanto o vento está particularmente frio. Sem dares conta, quase que instintivamente, passas as mãos pela pele exsudada de arrependimento e inspiras um pouco da essência que as altas ondas do mar transpiram, enquanto fechas os olhos e espreitas pela fantasia. Porém sabes que um simples fechar os olhos e um acordar a imaginação não chega nem nunca chegará. A realidade continua tão embaraçada, tão fria, tão inegavelmente distorcida e pisada como à minutos atrás.
Deparo contigo vidrada no vasto e harmónico futuro adiante, estarrecida, como uma haste, completamente imóbil e atrevo-me a dizer que por momentos te julguei sem vida. Caís-te na areia. Apenas assim soube que não te tinha perdido… ainda.
Caís-te. Mas apenas os teus membros inferiores se moveram, todo o teu restante corpo permanece intacto, os teus olhos continuam fechados, os teus braços continuam dados, o teu rosto continua imóvel como que hipnotizado, elevado, aguardando. Agora, ajoelhada, abres os olhos e posso então ver-te, ver-te através da máscara de resistente com que te escondes todos os dias: dessa pálida maquilhagem, das falsas e tão bem ensaiadas gargalhadas que ofereces, do orgulho, da frieza, da arrogância, da superioridade, dos vícios, da falsificada felicidade que mostras ter. Toda a doença que acarretas é estupidamente evidente, e apenas eu, o insignificante e inútil eu, consigo senti-la. Apenas aqui te despiste, unicamente aqui te libertaste e será por saberes que será a última vez que abrirás os olhos e te revelarás? Por saberes que nada posso fazer, que nada posso dizer?
Levantaste-te num tumulto e abraçaste-te com força, vertes-te lágrimas mas mais uma vez hipnotizada estavas. Perguntaria a mim mesmo a razão de tudo isto se não soubesse já a verdade. Ao te ter olhado e entrado no obscuro labirinto que é a tua mente, compreendi.
Ao de leve retiras a longa camisola branca de lã que trazes vestida tal como os calções escuros e aguardas em pé, no mesmo exacto sítio que tens estado nas últimas horas, por mais um rebentar de ondas, para sentir o odor a liberdade que sentis-te à chegada. Libertas-te dos teus braços. O teu corpo está agora à minha descoberta, entregas-te a mim, deixas que veja, que sinta, as feridas que provocas-te a ti mesma, que sinta as cicatrizes, dos cortes desesperados espalhados superficialmente por toda a tua epiderme e também todas as cova profundas da tua alma. Gritas-me interiormente para que não fuja, que não vá contigo, que fique. Ordenas que o teu corpo se desloque, que siga o que se comprometeu a fazer, apesar de receoso.
Enquanto te vejo caminhar em frente, sem olhar mais para trás, atento na magnificência com que te deslocas, na leveza a que o teu corpo se move agora. Adoro a maneira bela e elegante com que te libertas do passado. Cada pegada, tua, cimenta agora todos os pedaços sinistros de mágoa que transportas-te, silenciosamente, durante tanto tempo.
Contas-me um último segredo e depois de um sorriso deveras honesto, mergulhas. Debaixo da água gelada, debaixo das grandes ondas que anteriormente te trouxeram paz: não respiras. Debates-te contra o desejo de vir ao de cima, debates-te contra todos os monstros que te fizeram uma condenada, debates-te contra a tua parte humana, que te suplica que te deixes viver, que te dês uma outra oportunidade. Consigo ver, do local onde estou, a tua alma a ser arrancada do teu físico e agrada-me a sensação de saber que pela primeira vez, pela miserável primeira vez, sentes-te genuinamente... feliz.
Toda a fome que aguentas-te, toda a mágoa que não declaras-te, todas as lágrimas que aprisionas-te, todos os gritos que abafas-te, todas as más acções que te obrigas-te fazer, toda a perfeição que tentas-te alcançar, todo o sangue que deitas-te e limpas-te, toda a amargura que vi nos teus olhos: estão agora enterrados na singela areia que pisas-te. Estavas acorrentada no teu próprio corpo, eu sei e todos irão saber, não te preocupes. Os teus segredos comigo permanecerão.


11 comentários:

Sara disse...

adoro adoro adoro! simplesmente uma escrita pura e tão linda :)

ganhaste uma nova seguidora *

Sara disse...

existem, é verdade, mas na minha opinião igualam a tua :)

Sara disse...

de nada <3

Daniela. disse...

Maravilhoso. :)

Eliana disse...

meu deus, é o texto mais lindo que já li ! gostei tanto, princesa. estou a seguir. <3

Sara'C disse...

Está simplesmente BRUTAL!
Vou seguir (:

márcia morello disse...

também eu, a música faz tanto sentido!

Eliana disse...

ahah, não é exagero nenhum, querida :b fico feliz por gostares dos textos (;

bruninha. disse...

lindo, lindo, lindo!!!!

Mariana disse...

Sinto-me mesmo bem ou ler o que me disseste. O meu blogue estará sempre aberto enquanto as palavras continuarem a sair de mim...

Quanto aqui, ao teu texto, FANTÁSTICO!:)

Anónimo disse...

o teu texto tá simplesmente espetacular! amei aserio .